A Formação do Bairro Central do Município de São João de Meriti
De Arraial da Pavuna a Centro do Município de São João de Meriti
O centro não está necessariamente no centro geográfico, e nem sempre ocupa o sítio histórico onde esta cidade se originou, ele é antes de tudo um ponto de convergência/divergência, é o nó do sistema de circulação, é o lugar para onde todos se deslocam para interação dessas atividades aí localizadas com outras que realizam no interior da cidade ou fora dela. (SPOSITO, 1991)
Os arraiais, ajuntamento de casas e pessoas, eram escassos dentro da freguesia de São João de Meriti e seguiam às margens das vias de comunicação. Inicialmente, seguiam às margens dos rios e depois às margens das estradas. O caso do Arraial da Pavuna não foi diferente, ele surgiu no entorno de um porto colonial que servia não só à Fazenda de N. Sra. do Desterro da Pavuna, mas também a outras fazendas no interior do território da freguesia onde os rios Pavuna e Sarapuí não davam profundidade para passagem das embarcações. Isso fica evidente quando analisamos o caso da Fazenda de São Matheus, uma das mais produtivas da freguesia, e que no futuro daria origem ao território do Município de Nilópolis, que exportava sua produção açucareira por meio de carros de boi ao longo da Estrada de São Matheus que ligava esta fazenda ao porto da Pavuna. Para Lewis Munford (1998), o primeiro meio eficiente de transporte em massa foram as vias aquáticas e, por isso, não é por acaso que o primeiro crescimento das cidades teve lugar em vales de rios. Somente depois disso, o burro, o cavalo, o camelo, o veículo de roda e finalmente a estrada calçada ampliaram os domínios do transporte e deram a cidade comando sobre homens e recurso em áreas distantes.
Desde tempos ancestrais essa receita foi seguida, inclusive pelos "semeadores de cidades", nas palavras de Sérgio Buarque de Holanda (1995), quando se referia aos portugueses e seu projeto civilizacional utilizando as cidades como instrumento de dominação dos novos territórios. No caso de São João de Meriti também não foi diferente. As primeiras vias de acesso ao interior dos territórios da baixada fluminense foram os rios e em São João de Meriti esta função foi do Rio Pavuna/Meriti. Diante disso, a antiga tapera da aldeia dos tupinambás da Pavuna serviu de referência para a criação do Engenho de N. Sra. do Desterro da Pavuna e seu porto. Ao longo do tempo este porto cresceu de importância. Contudo, o momento decisivo dessa centralidade foi a construção de uma estrada em 1750.
Com o ciclo do ouro, algumas estradas construídas com o objetivo de ligarem o Rio de Janeiro até Minas Gerais passavam pela Pavuna. Em 1750, foi aberta uma estrada chamada Caminho de Terra Firme, Estrada de Minas ou Caminho Novo do Tinguá, feita pelo Mestre de Campo Estevão Pinto. Esse caminho se tornou uma alternativa ao trecho do Caminho Novo de Garcia Paes, até Pilar e seu porto, e o Caminho Novo do Inhomirim ou do Proença, aberto por Bernardo Soares de Proença, que chegava até o porto de Estrela. Ao contrário dessas duas estradas que tinham um trecho de barco até o porto do Rio de Janeiro, o Caminho de Terra Firme poderia ser percorrido todo por terra. Esse caminho saía do Rio de Janeiro passando por Irajá, Pavuna, pelos Engenhos de São Matheus, da Cachoeira, Maxambomba, Belém, contornava a Serra do Tinguá, subindo a serra pelas atuais Paulo de Frontin, Sacra Família do Tinguá e Morro Azul até se encontrar com o Caminho Novo de Garcia Paes e segui por esse caminho até Minas Gerais. (DELPHIM, 2020)
Um importante elemento espacial que ajudou a permitir o crescimento do Arraial da Pavuna foi a existência de uma ponte sobre o Rio Pavuna nessa localidade. Essa ponte sobre o Rio Pavuna existia antes de 25 de maio 1831, quando Manoel Jordão da Silva, fiscal da Freguesia de Meriti, reclamou à câmara municipal da Cidade do Rio de Janeiro sobre a necessidade da construção de uma ponte já que a antiga estava extinta o que causava incômodos e queixas dos moradores e viajantes. (SANTOS, 1909)
Diante dessa situação a construção de uma nova Igreja Matriz foi idealizada. O Comendador Antonio Tavares Guerra, um dos grandes proprietários e empreendedores da freguesia, em 1876, doou um terreno desmembrado de sua propriedade, a Fazenda do Carrapato, na margem esquerda do Rio Pavuna, no Arraial de N. Sra. do Desterro da Pavuna. A doação deste terreno contribuiu para a formação da centralidade do Arraial da Pavuna dentro do território da Freguesia de São João Baptista de Meriti, na época uma das Freguesias que compunham a Vila de Iguassú. Posteriormente, essa nova igreja matriz serviu para confirmar o Arraial da Pavuna como Sede do 4° Distrito de Iguassú, já no período republicano.
A implantação do transporte ferroviário trouxe profundas alterações nos fluxos de deslocamento de pessoas e mercadorias. Em 1858, a Estrada de Ferro Dom Pedro II atravessou uma parte da freguesia de São João de Meriti. Ela foi seguida por outras duas: a Estrada de Ferro Rio D'Ouro, em 1876, e a Estrada de Ferro do Norte, em 1886. Essas estradas de ferro, não só em na freguesia objeto de estudo, mas também em outras promoveu novas centralidades por meio de suas estações ao longo de seus trajetos. Essas centralidades promoveram o deslocamento de antigos centros políticos administrativos para as proximidades dessas estações ferroviárias. Isso ocorreu com a sede da Vila de Iguassú que teve sua sede transferida para os arredores da estação de Maxambomba, em 1916, renomeada para Nova Iguaçu.
Na freguesia e, posteriormente, Distrito de São João de Meriti o Arraial da Pavuna já se destacava como sede do Distrito e teve sua confirmação assegurada pela passagem da Estrada de Ferro Rio D'Ouro. Em 1883, esta estrada de ferro teve seu tráfego aberto ao transporte de passageiros. Isto garantiu a existência da Estação da Pavuna. Tendo em vista que a Estrada de Ferro Rio D'Ouro foi construída para transportar os materiais para a construção de barragens e uma adutora para abastecer de água a Cidade do Rio de Janeiro, então Capital Federal. Após a implantação desse sistema de abastecimento, a estrada foi aberta ao tráfego de passageiros. Essa estrada passou pela Pavuna, porque ela seguiu o leito da antiga Estrada de Terra Firme e Estrada da Polícia. A instalação da Estação da Pavuna serviu para confirmar a centralidade desse povoado diante das alterações proporcionadas pelas ferrovias que passavam pela Baixada Fluminense.
As outras ferrovias também provocaram novas centralidades no entorno de suas novas estações ferroviárias. Em primeiro lugar, a instalação da Estação de Merity, atual Caxias, em 1886, da Estrada de Ferro do Norte, posteriormente Leopoldina Railway, no território da freguesia de São João Baptista de Meriti. Por isso, ela recebeu o nome de Estação de Merity. Essa nova centralidade proporcionada pela possibilidade de deslocamento rápido entre a estação de trem e a capital provocou o deslocamento populacional para o entorno dessa estação, esvaziando inclusive a sede colonial da Freguesia, no entorno da antiga Igreja Matriz de São João de Baptista de Meriti, no atual bairro Parque Lafayete. Assim, no entorno da Estação de Merity surgiu um povoado.
Em segundo lugar, em 1915, no curso da Estrada de Ferro D. Pedro II, nesta época já renomeada para Estrada de Ferro Central do Brasil, na Estação de Engenheiro Neiva, posteriormente, Estação de Nilópolis, ocorreu o loteamento da antiga Fazenda de São Matheus. Esse loteamento atraiu população para o entorno dessa estação e formou um novo povoado dentro do Distrito de São João de Meriti, formando uma nova centralidade.
Assim, o Distrito de São João de Meriti, por volta da década de 1920, possuia três povoados que centralizavam os fluxo de pessoas e mercadorias dentro de seu território. Em 1916, o Povoado de Engenheiro Neiva, tornou-se o 7° Distrito de Iguassú, sendo seu território desmembrado do território do 4° Distrito, então São João de Meriti com sede na Pavuna. O mesmo aconteceu com o povoado no entorno da antiga Estação de Merity, posteriormente Caxias, em 1931, foi elevado à 8° Distrito de Iguassú. (CÂMARA MUNICIPAL DE NOVA IGUAÇU, 2000)
Essas novas centralidades não comprometeram a transformação do Arraial da Pavuna em sede do 4° Distrito de Iguassú. Essa centralidade foi confirmada em 1919, quando a legislação municipal de Nova Iguaçu reconhecia a sede do 4° Distrito no povoado do Arraial da Pavuna. (CÂMARA MUNICIPAL DE NOVA IGUAÇU, 2000) Nessa época, o Arraial da Pavuna abrangia as duas margens do Rio Pavuna/Meriti, e o Município de Nova Iguaçu reivindicava a posse de todo o Arraial da Pavuna, margem esquerda e margem direita, que estava no território da Cidade do Rio de Janeiro. Essa disputa entre Nova Iguaçu, Estado do Rio de Janeiro, e a Cidade do Rio de Janeiro, Capital Federal, ficou conhecida como: O Contestado da Pavuna ou Contestado Carioca. O resultado dessa disputa foi a manutenção da da parte do Arraial da Pavuna na margem direita no território da cidade do Rio de Janeiro. Já margem esquerda se transformou na sede do Distrito e, posteriormente, centro do Município de São João de Meriti. (TORRES, 2010)
Bibliografia
CÂMARA
MUNICIPAL DE NOVA IGUAÇU. Memórias da Câmara Municipal de Nova Iguaçu, Nova
Iguaçu: CMNI, 2000. Nova Iguaçu. Disponível em: <https://www.cmni.rj.gov.br/site/historia/livro-memoria-da-camara-municipal-de-novaiguacu.pdf>
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DELPHIM,
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Revista Eletrônica Saiba História. Agosto de 2020. Disponível em: < https://saibahistoria.blogspot.com/2020/08/pavuna-e-os-portos-da-regiao.html>
Acessado em: 10/04/2021.
HOLANDA, Sérgio Buarque. Raízes do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 26ª ed.
MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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Território Fluminense. 2008. Disponível em:<http://www.institutocidadeviva.org.br/inventarios/sistema/wp-content/uploads/2008/06/oscaminhosantigos.pdf>
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PIZARRO
E ARAÚJO, José de Souza. Memórias Históricas do Rio de Janeiro: e das
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SANTOS, Noronha. Memória acerca dos limites do Distrito Federal com o Estado do Rio de Janeiro. In: Revista da Sociedade Brasileira de Geographya. Tomo XXII – XXIV. 1909.
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TORRES,
Gênesis (org.). Baixada Fluminense – A construção de uma história. Rio de
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TORRES,
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Disponível em: <http://historiasdabaixadafluminense.blogspot.com/2010/09/o-contestado-da-pavuna.html>
Acessado em: 03/08/2021.






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